
Maria Alice, sua formação acadêmica é arquiteta. O que lhe levou a trabalhar com Publicidade ?
Não deixei de trabalhar com arquitetura nunca, mas mesmo antes de terminar a faculdade já trabalhava com design gráfico, e as agências eram os únicos lugares que absorviam um profissional dessa área na época em que fui atrás de um emprego fixo.
Como foi o início dessa transição de carreira ?
Não houve problemas, não foi uma transição, só fui procurar me empregar numa agência de publicidade depois de ter um nome reconhecido no mercado na área de design gráfico, já tinha larga experiência com produção gráfica e havia passado pela docência também no Departamento de Comunicação da UFPA. Devo minha trajetória a muitas pessoas, dentre elas o ex secretário de cultura, Paulo Chaves, que desde que eu era estudante sempre me incentivou nessa área.
Hoje, é mais difícil entrar no mercado Publicitário sem uma formação específica em artes ou comunicação ?
Vejo que sempre existem espaços para os bons profissionais independentes de onde venham. Não adianta você ter formação específica e não ter disciplina, ética, cultura, informação, humildade, senso crítico…isso não se aprende necessariamente numa faculdade, não é o diploma que garante isso. Mas o mercado não absorve qualquer um não, está mais exigente, a concorrência é maior e a oferta de mão de obra ampliou-se muito nos ultimos 5 anos.
Qual a primeira agência que você trabalhou? Você encontrou resistência para entrar no mercado ?
Encontrei resistência sim, pois muitos donos de agência me viam com preconceito, justamente por fazer parte de um pequeníssimo grupo de designers independentes em Belém, digo independentes pois fazíamos nossos próprios clientes e nossos nomes sem precisarmos de uma empresa grande por trás. Lembro-me que quando comecei, final dos anos 80, fui procurar uma agência para oferecer meus serviços em design, um cartão de natal diferente, o dono me olhou e disse: – Muito bonito seu trabalho mas o que meus clientes vão pensar se eu contratar um profissional de fora do meu quadro de criativos? Que meus diretores de arte não são criativos? Achei aquela resposta muito retrógrada, mas infelizmente até hoje persiste. Minha idéia nessa época era servir as agências com esses trabalhos específicos, uma espécie de terceirização, mas não colou não. Agora o caminho inevitável talvez seja esse, oferecido a mais de 20 anos. Trabalhei anos a fio, sábados, domingos e feriados para fazer meu nome sozinha, e muitas vezes não recebi um tostão por eles, só queria mostrar o trabalho. Anos depois quando me senti preparada fui oferecer meus trabalhos na Mendes, em uma semana fui contratada, e estou aqui vão fazer 10 anos.
O que há de mais legal e chato em ser publicitário ?
Legal é ter sempre trabalhos e clientes muito diferentes, acho legal a diversidade. Chato é ter que decifrar o que eles querem de fato, as reuniões intermináveis para não se resolver nada e a exigência de que façamos tudo rápido por usarmos computador, mas o computador é um bicho bitolado.
Os anunciantes amadureceram ao longo de sua carreira, ou continuam tendo uma compreensão limitada sobre Publicidade e Marketing ?
Amadureceram bastante, mas ainda têm uma compreensão muito aquém do esperado por nós. Haja paciência.
Como é a sua rotina de trabalho ?
Muito louca, não paro, de manhã, a tarde e a noite. Estou em 3 lugares diferentes e quase ao mesmo tempo, Mendes, Casa Brazilis Design e FAP. Desplugo numa e plugo na outra. Mas minha meta para 2010 é desacelerar ficando com algumas tardes livres para coisas mais prosaicas.
Fazer seu caminho sem pensar nas dificuldades. Os mercados sempre foram difíceis, na minha época não tinha computador, nem gráficas boas, nem clientes com esclarecimento, nem nada; tivemos que começar praticamente do zero, aprender tudo sozinhos, isso nos fez mais fortes, mais resistentes talvez, não havia mercado, o criamos com muito trabalho e muita dedicação. Agora é a vez de vocês continuarem e aperfeiçoarem a obra. E isso não se consegue da noite para o dia e nem esperando que caia do céu uma boa oportunidade de emprego.
Hoje, você é reconhecida como um dos ícones da propaganda regional. Qual o fator determinte para o seu sucesso ?
Esse era um título que não gostaria de ganhar nunca, será que sou mesmo? Bem, se sou, então agora devo apressar-me para abrir minha loja de botões e passamanarias antes que eu vire um mito ou uma lenda viva. (risos).
Respondendo a sua segunda questão, nunca me preocupei com o sucesso, sempre me preocupei em oferecer um trabalho coerente com meu pensamento, atender os clientes com ética e boa vontade, ser muito crítica com a minha própria produção e não olhar para os lados para me comparar com ninguém. Acredito que a fórmula do sucesso profissional está na capacidade de você se manter no mercado com esse perfil por longo tempo e fazer isso espontâneamente, sem muito planejamento não.
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